Estória do Mês | O Saloio

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saloio é sensual como um tigre e bondoso como um franciscano, mas não lhe pisem os calos!

Esta é uma das muitas definições existentes para o habitante natural da nossa Freguesia.
Em 1917, o professor David Lopes defendeu que a palavra “saloio” seria a evolução do vocábulo arábico “çahrui”, aquele que vive no campo. Contudo não foram abandonadas as hipóteses de “çaloio”, o tributo que se pagava sobre o pão cozido e ainda aquele que mora nos “arrabaldes” da cidade de Lisboa, após a reconquista cristã.

Os saloios são pessoas do campo; eles cultivam o campo, manobram charruas, lavam roupa no rio, fazem pão e vendem hortaliça pelas ruas da capital.

Todos os dias, o saloio tinha o ritual de ir para Lisboa, com carroças ou galeras, cheias de alfaces, couves, frutas, leite (às vezes também levavam a vaca o a cabra que ordenhavam em frente do freguês) e o típico pão saloio. Quando vendiam tudo, voltavam para o trabalho da terra.

É fácil imaginar os casais da Pontinha e de Famões com os seus campos cultivados e com gado a pastar.

Em Famões, na Quinta do Alvito, ainda existe o espaço das antigas vacarias e na Quinta do Segulim semeava-se os campos para fornecer cereal aos moinhos dos arredores e, ainda hoje, com o empenho da Escola Profissional Agrícola D. Dinis, na zona da Paiã, podemos observar as vinhas, pomares, gado a pastar e campos lavrados.

Mas o saloio também tinha momentos de lazer frequentando bailaricos e feiras, onde jogava ao chinquilho, à laranjinha e ao pau de sebo, contudo era frequente “desobedecer” aos ideais da Igreja e trabalhavam ao domingo, porém, o círio de Nossa Senhora da Nazaré e de Nossa Senhora do Cabo, ainda hoje, são momentos de devoção das populações saloias.

Infelizmente, o termo “saloio” ganhou uma noção pejorativa estando bem identificado, cronologicamente, quando tal aconteceu: 1858.

Nesse ano, foi publicado o livro “Physiologia do Saloio” de A. da Cunha Sotto Mayor, um morgado com solar perto de Mafra, que caracterizou o saloio como “imundo”, “feio”, que “repele o amor”, “come com as mãos”, “não pensa”, “fala sem ninguém entender” e de “cabeça vazia”.

Felizmente, no fim da primeira metade do séx. XX foi publicado “O Saloio, sua origem e seu carácter – Fisiologia, Psicologia, Etnologia”, de João Paulo Freire, que repôs a verdade sobre as características do homem forte, sincero e leal que é o saloio.

No século XX o saloio saiu dos campos à procura de trabalho na grande cidade e a região transformou-se em dormitório, um efeito muito acentuado na nossa Freguesia, contudo, tenha atenção, porque ainda se pode cruzar com um pastor e o seu rebanho no Casal Novo ou uma vendedora de hortaliça na Pontinha.