Famões

Caracterização e dados históricos 

Situado na zona ocidental do Concelho de Odivelas, Famões faz fronteira com a Ramada, Odivelas, Pontinha, Caneças e com o Concelho de Sintra.

Com uma área de 4,66 km2, fica a uma altitude média superior aos 100 metros, sendo o ponto mais alto assinalado pelo marco geodésico do Casal do Bispo, com 289 metros, o que lhe permite ter algumas das mais bonitas panorâmicas do Concelho. Tem, de acordo com os dados dos censos de 2011, 11 095 habitantes.

Em termos administrativos, a Freguesia de Famões foi criada no dia 25 de agosto de 1989, por desanexação da Freguesia de Odivelas, que então pertencia ao Concelho de Loures. Foi elevada à categoria de Vila no dia 19 de abril de 2001, com a aprovação na Assembleia da República da Lei 58/2001.

Passou a fazer parte do Concelho de Odivelas, depois de este ter sido criado por desanexação do Concelho de Loures, a 19 de novembro de 1998.

Com a Lei n.º 11-A/2013, que deu cumprimento à  reorganização administrativa territorial autárquica postulada pela Lei n.º 22/2012, de 30 de maio, a Freguesia de Famões foi agregada com a da Pontinha, dando origem, a partir de 29 de setembro de 2013, à União das Freguesias de Pontinha e Famões.

Em termos eclesiásticos, a Paróquia de Famões pertence à Vigararia de Loures-Odivelas, Diocese de Lisboa, e tem como orago Nossa Senhora do Rosário.

Antiguidade da terra e do nome

O povoamento da área que integrou a Freguesia de Famões remonta a épocas pré-históricas, havendo vestígios de ocupação humana pelo menos em datas que se podem situar no 5.º milénio antes de Cristo.

Cerca de 1912, o investigador Vergílio Correia dava conta da existência de duas estações arqueológicas em Famões, uma delas em terrenos dos Alvitos, de que hoje não se conhecem vestígios

Na década de 1920, Francisco Ribeiro, um amador de Arqueologia, fotografou e escavou quatro dólmenes que descobriu na zona dos Trigaches. E foi já na década de 1960 que estes monumentos foram mais profundamente estudados e catalogados pelos especialistas Octávio da Veiga Ferreira e Vera Leisner, que encontraram inúmeros vestígios megalíticos na área que denominaram Necrópole dos Trigaches.

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Infelizmente, por incúria ou outras razões, destes monumentos pré-históricos resta apenas o espólio recolhido pelos investigadores, que actualmente faz parte do Museu dos Serviços Geológicos, em Lisboa.

Em períodos anteriores ao séc. XVIII, Famões deveria ser um pequeno casal agrícola (igual a tantos outros existentes na mesma região), tal como aparece mencionado na confirmação de um aforamento feito pela Chancelaria de D. Afonso V, em 1457. Nessa época, o casal de Famãees – assim era denominado este “casal de pão” – pertencia à Gafaria de Almada (um hospital que acomodava os gafos ou leprosos) e andava aforado ao tanoeiro Lopo Fernandes que o doou a Beatriz Lourenço, os dois moradores em Lisboa (Chancelaria de D. Afonso V, Livro 7 – Estremadura, fl. 56 v. e 57 f.). Esta é a primeira notícia que até hoje foi possível encontrar relativa ao sítio de Famões. A partir do séc. XVIII, o nome de Famões começa a ser mais comummente fixado em numerosos documentos. Na Chorographia do Padre António de Carvalho (1712), Famões aparece como um lugar, a par dos Pombais, entendendo-se um lugar como um aglomerado de alguns (poucos) casais agrícolas. Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco refere que no lugar de Famões habitavam 44 pessoas.

Pelos registos da Décima da Cidade (um documento fiscal do período pombalino), sabemos que o casal de Famões propriamente dito andava na posse de um Manuel Francisco Camello, que ainda nessa altura tinha obrigações fiscais com a Misericórdia de Almada, instituição onde os bens da Gafaria deverão ter sido incorporados.

Sobre a origem etimológica do nome de Famões pouco hoje se poderá dizer. A sua originalidade é quase única, existindo apenas uma outra localidade homónima no concelho do Bombarral.

Apesar de serem hoje mais excêntricos e, por esse mesmo motivo, terem perdido a relativa importância que antes tinham, mantêm-se desde os finais da Idade Média vários sítios ou lugares na toponímia actual. Estão neste caso o sítio dos Alvitos (hoje Quinta do Alvito), um lugar alto, de atalaia sobre o vale circundante; o Trigache, um lugar que poderá ter adquirido o nome a partir de um certo tipo de trigo, produção abundante na região; o sítio dos Queimados (hoje Casal das Queimadas), provavelmente um topónimo que poderá ter estado ligado à existência de gente de tez escura, ou mesmo negra; sítios que adquiriram o nome da paisagem, como muito provavelmente aconteceu com os Campos, os Carrascos, o Outeiro, a Silveira, o Saramagal, ou da orografia, como se nota na Barroca, no Cabeço do Bispo; por fim, lugares que obtiveram o seu nome da gente famosa que os deu em arrendamento, como o sítio das Comendadeiras, a Quinta do Abadesso ou a Quinta das Pretas d’El Rei.

Economia antiga de Famões

Famões teve no passado uma actividade agrícola intensa. A existência de numerosas quintas e casais (Quinta do Alvito, Quinta do Segolim, Casal de S. Sebastião, Quinta das Pretas d’El-Rei, Quinta das Dálias, e muitas mais) denuncia bem essa característica. Aí se cultivavam cereais, oliveiras, laranjeiras, se apascentavam rebanhos de ovinos e se criava gado vacum, sendo o leite e o queijo, a par das cerealíferas e derivados, produtos importantes na economia da população.

As características do solo e as condições climatéricas deram uma relativa unidade económico-social a toda esta área.

A produção de cereais exigia lugares de concentração, para a tarefa de debulha — as eiras. Malhado e limpo nas eiras, ficava o trigo preparado para ser moído. Os ventos fortes e constantes, na Primavera e no Verão, que sopravam no planalto, possibilitaram o aproveitamento da sua energia, transformando-a em força motriz, para fazer mover os moinhos de vento, que chegaram na área circundante a ser mais de uma dezena.

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Restam as ruínas de alguns desses moinhos, um dos quais, o Moinho da Laureana, no outeiro que encima o Jardim Gertrudes da Velha, é hoje o ex-líbris de Famões, depois de ter sido restaurado, funcionando como núcleo museológico.

Marcado por acentuados desníveis orográficos, dando origem a montes e “barrocas” (crateras), parte do território que constituiu a Freguesia de Famões reflete a importância das pedreiras do Trigache, cuja actividade é assim descrita nas Memórias Paroquiais de 1758: «Junto a este lugar de Trigache há duas notáveis pedreiras, vulgarmente chamadas do Trigache, donde se tem tirado para vários templos e edifícios não só da Corte, mas de todo o Reino, e ainda actualmente se tiram admiráveis pedrarias, umas brancas tão claras, que depois de lavradas e brunidas, parecem de jaspe, outras vermelhas e outras mescladas de branco e vermelho, que depois de brunidas parecem pintadas». Foi destas pedreiras que saiu a pedra para a reconstrução da cidade de Lisboa aquando do terramoto de 1755.

Famões na atualidade

O presente do território que constituiu a  Freguesia de Famões já nada tem a ver com o passado referido antes. Era um pequeno aglomerado de casais de agricultores “saloios” dedicados às culturas hortícolas e à pecuária com que ajudaram a alimentar Lisboa. Com o tempo, instalaram-se aqui várias quintas de veraneio para a nobreza e familiares, e também para famílias burguesas endinheiradas da cidade.

Mas as quintas dos nobres e da burguesia eram espaços reservados e fechados. À sua volta persistiu, durante séculos, uma população profundamente enraizada numa cultura rural, com conotações muçulmânicas, a que se juntaram posteriormente algumas famílias alentejanas e outras do Ribatejo e Beiras, igualmente ligadas à terra e que vieram atraídas pelos empregos em Lisboa.

Mesmo assim, olhando para a primeira carta aérea da região, feita pelo Instituto Geográfico Cadastral em 1944, verifica-se o carácter totalmente rural de Famões nessa época.

O panorama alterou-se profundamente das décadas de 60-70 do século passado para a actualidade. A proximidade com a grande cidade e, ao mesmo tempo, a abundância de espaço a preços na altura convidativos facilitaram a implantação de construção urbana ilegal, hoje em total recuperação e legalização. Surgiram empresas familiares e unidades de pequena e média indústria, atualmente em parques empresariais. O comércio também tem sido alvo de investimento, com a criação de armazéns grossistas e de supermercados das grandes marcas que operam em Portugal.

A construção habitacional é na sua esmagadora maioria do tipo vivenda familiar de dois andares, havendo apenas um bairro onde é permitida a construção de outra tipologia.

Atualmente a agricultura é uma actividade sem expressão e os investimentos nesta área são nulos, pelo que o fim do sector primário é certo. Em seu lugar, é ao comércio, à indústria e aos serviços que a população residente vai buscar os rendimentos gerados na área territorial que foi a Freguesia de Famões.

Bibliografia:
FARINHA, Luís. Boletim Informativo, n.º 11, edição J.F. Famões, out/dez 2000
VAZ, Maria Máxima. Odivelas, Uma Viagem ao Passado, edição CMO, 2003